luns, 1 de maio de 2000
Botelha ao mar 2 (Maio-2000)
ANDAM COM O CENTENÁRIO DE BUÑUEL às voltas. Que ganhas de andar com os mortos a marealos. Um artista segue vivo em tanto que artista ainda que morresse se a sua obra segue a actuar sobre a gente, mas quando che fam estas pompas fúnebres centenárias unicamente querem foder-te e dissecar-te. E Buñuel segue vivo. O conto é que volto a ver um fotograma daquele “Cam andaluz” no que um homem corta limpamente com umha navalha de barbear o globo do olho a umha mulher.
Parece-me que entendo bem o jogo da provocaçom, da perturbaçom, e nom digo nada. Unicamente que, mais umha vez, é o homem o que viola, tortura, ofende, destrui o corpo da mulher.
Já sei, já sei, a arte é o terreno da liberdade, também quero isso para mim; também sei que eram outros tempos e nom havia esta nova consciência que por primeira vez na história da nossa espécie fai que aprendamos a ver o mundo com os olhos das mulheres. Nom julgo neste caso, nom julgo.
Mas hai pouco lim umha reportagem sobre as mulheres albanesas e kosovares sequestradas, compradas, violadas, torturadas e marcadas para ser prostituídas na Europa, nom deixo de interrogar-me sobre a masculinidade e quando vejo essa imagem vejo todo isso. Vejo mal? Se calhar.
POR CERTO, SOBRE OS CENTENÁRIOS E OUTRAS PERVERSONS: Os escritores galegos temos, como sonhou Andy Warholl para todo o mundo, o nosso ínterim de glória garantido. O dia das Letras Galegas de cada ano vai dedicado a bons e maus escritores por igual, mesmo vai dedicado a persoas que nom eram escritores apenas. Eu renuncio a ele, se se me permitir. A Glória do artista, a memória, é ganhada a pulso, se nom conseguim umha obra literária que mereça ser lida logo de que eu morresse, pois fracassei. E quero ter direito ao fracasso e ao esquecimento piedoso.
E já nom comento o aspecto que tem a celebraçom de adecentar o defunto para o mundo. Nem quero que o mundo saiba das minhas misérias, som minhas, o mais meu, nem quero que me embalsamem pulcramente para dizer que fum um santo (som un cabronazo do caralho). Um compreende perfeitamente o que foi o Dia das Letras para umha cultura assovalhada, mas espero que se compreendam também estas raçons persoais. Ao cabo, um algo terá de dizer sobre os seus funerais. Digo eu.
Assi pois, fica escrito, nom compito por esse presente mortuário, que nom haja Dia das Letras Galegas dedicado a mim.
E PERDO-ME TODAS AS HONRAS, pois já tenho assinado desde hai uns quatro anos um escrito no que afirmo que nunca entrarei em nengumha Academia das Letras e essas cousas. É preciso que os escritores de por aquí esqueçamos os sonhos burocraticos e comecemos a sonhar com outras cousas, coa gloria se calhar.
O VARREDOR PASSA A CANTAR; já quase ninguém canta. Talvez a de varredor seja a profissom ajeitada para ser feliz.
Shakespeare fijo que os filósofos fossem príncipes, talvez Buda fosse um varredor municipal.
UM GUIA TURÍSTICO A EXPLICAR OS MONUMENTOS NA PRAÇA DO OBRADOIRO em galego. Estranho-me todo. A explicaçom, os turistas som portugueses.
Tanto lhe custa a algumha gente aceitar esta evidência? Tanto lhes doe que preferem evitar que nos poidamos aproximar e entender? Eu nom os entendo a eles.
Ou se calhar sim que os entendo, nom querem umha naçom senom quatro putas deputaçons e províncias povoadas de “almas rendidas” (assim chamaba o Ortega aos galegos). E nom querem umha cultura senom umha culturinha.
Umha cultura está normalizada e vive no mundo, medindo-se com as outras culturas. Umha culturinha é um binquedo mui manejável e ali qualquer é o rei.
Merda para as culturinhas.
OS SALTOS: Ninguém cavila o bastante nos saltos, no que em espanhol se di tacons. Mas os saltos transformam a gente, sobretodo as mulheres. Um par de saltos provoca mudanças na identidade persoal. Umha mocinha ou umha mulher pequena pom um bom par de saltos e transforma-se numha mulher imponente, ou ela ve-se assim. O salto muda-lhe a figura ressaltando o que ela quere ressaltar, dá-lhe um andar torpe que semelha garboso e dá-lhe altura. Suponho que dá todo isto e compreendo a tentaçom de levar saltos. Hoje todos nos trabalhamos a identidade persoal a pulso. Viver está duro de caralho, claro que também tem as suas alegrias.
OS ACTORES. Aqui os estám, antes dum acto social, dumha representaçom, dumha gala, qualquer ocasiom da vida da profissom…, barulheiros e como meninos. Provavelmente é-lhes precisa essa como leveza, como puerilidade. A disponibilidade dos rapaces para o jogo para logo encarnar na cena o mais negro, o mais turbo ou o mais elevado; o mais elevado.
CADA DIA ESTAMOS MAIS VACIOS, baleiros de nós, de todo. E máis cheos de ruído. Cada dia é máis doado ser estrela mediática e máis difícil ser artista. Cada paso máis difícil estar cheo de un propio, cheo do mundo. Ou sequer ter unha pouca substancia.
Este é o tempo da xente leve, incolora, inodora e insípida. O meu puto tempo.
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